Mulher usando cadeira de rodas motorizada conversa ao ar livre em área com gramado e árvores.
Política de enfrentamento ao capacitismo e de promoção da acessibilidade proporcionou dignidade e conforto a mulheres com deficiência em exames ginecológicos | Samara Prado/MDHC

De um dia para o outro, a vida de Ana Cláudia Tiburtino mudou completamente. Ela caminhava pelas ruas do bairro Chã da Jaqueira, em Maceió (AL), com uma caixa nas mãos que atrapalhava sua visão. Ao descer uma escadaria, aos 12 anos, ela se desequilibrou e caiu. “Quando eu coloquei o pé, saí rolando, cheguei embaixo desmaiada. Quando voltei, saí correndo e, a partir daquele momento, começou a minha trajetória como pessoa com deficiência”, conta.

Devido à queda, Ana Cláudia foi diagnosticada com miopatia muscular, uma condição que enfraquece a musculatura, podendo afetar diferentes funções do organismo. No seu caso, a condição promoveu a atrofia dos músculos, comprometendo os movimentos das pernas e tornando necessário o uso de cadeira de rodas.

“É uma doença rara que precisa de um gatilho para se desencadear. Meu gatilho foi a queda. Não foi fácil, eu era apenas uma adolescente. Mas hoje me tornei a mulher que sou: empoderada, independente. Sou referência para todas as outras com deficiência. Juntas, nos apoiamos e superamos obstáculos”, afirma.

A partir do diagnóstico, Ana Cláudia refletiu sobre a vida e decidiu não se limitar. O que muitos perceberiam como um ponto final, ela entendeu como um ponto de partida. “A vida não parou. Hoje, eu posso dizer que todos os meus sonhos estão se realizando. Porque, na realidade, essa deficiência não me impede de conquistar aquilo que desejo. Não existem obstáculos para mim”, destacou.

Atualmente, ela trabalha na Secretaria de Estado da Cidadania e da Pessoa com Deficiência de Alagoas e preside a Associação de Mulheres com Deficiência (AMDEAL). Ao relembrar o seu processo de adaptação à nova realidade, Ana Cláudia diz ter recebido muito apoio de seus familiares e amigos que cativou ao longo de sua trajetória.

“Desde que passei a utilizar a cadeira de rodas, tive uma rede de apoio muito grande. Familiares, vizinhos, todos me apoiaram bastante. Na escola em que estudei, os meus colegas de classe se tornaram verdadeiros amigos. Na época, a minha cadeira não era motorizada, e eles me levavam e traziam da escola”, relembra.

Sobre sua cadeira, Ana Cláudia diz que a considera uma grande amiga. Antes de viajar para Fortaleza (CE), ela providenciou novos pneus e bateria para o equipamento essencial para a sua mobilidade. “Ela está comigo em todos os lugares. Eu digo a ela: ‘olha, você não pode quebrar.’ Eu a amo muito, muito mesmo. Ainda quero deixá-la rosa-choque”, conta, entre risadas.

Por mais que pessoas e redes de apoio a auxiliem, Ana Cláudia lembra da necessidade de acessibilidade para que possa ter liberdade para seguir com a vida, tendo o menor impacto possível. “A deficiência não me define, mas a falta de acessibilidade me exclui e, se não exclui, muitas vezes me constrange”, desabafa.

Investimento para autonomia

Foi com o intuito de promover acessibilidade a Ana Cláudia e a várias outras mulheres cadeirantes que, em 2024, Maceió recebeu macas ginecológicas acessíveis para a realização de exames. Os equipamentos contam com uma estrutura modular, que permite que os profissionais da área da saúde os montem de acordo com as necessidades de cada paciente.

Mulher em cadeira de rodas motorizada posa em área arborizada de praça urbana.
Foto: Samara Prado/MDHC

Os leitos adaptados tornaram os procedimentos, que antes eram embaraçosos pela natureza e pela limitação de equipamentos não adaptáveis, em momentos de puro cuidado e conforto. “Graças ao Novo Viver Sem Limite, Maceió conta com aparatos modernos. Agora não precisamos de ajuda para subir nelas. Elas são desmontáveis e moldam aos nossos corpos”, descreve.

Quando as macas chegaram, Ana Cláudia convidou uma amiga, a dona Teresa Nelma, para contribuir na capacitação de médicos e enfermeiros que iriam manuseá-las. “Eu falei: dona Teresa, aconteceu! Acabaram de chegar, aqui em Maceió, as macas acessíveis. Agora precisamos preparar os profissionais que vão trabalhar com elas”.

Após o treinamento, as macas seguem em pleno uso, tornando a vida de Ana Cláudia e de outras mulheres mais fluida. “A gente fica muito feliz, porque a autonomia nos foi devolvida. Hoje, eu e outras mulheres com deficiência podemos ir a uma Unidade Básica de Saúde e encontrar as macas ginecológicas acessíveis. E não é difícil marcar os exames: você vai na UBS, mostra o seu cartão SUS, os seus documentos e já faz o agendamento. Se tiver vaga no mesmo dia, você já faz o exame”.

Ao avaliar a política pública que possibilitou o a melhoria na estrutura de saúde, Ana Cláudia afirma perceber avanços importantes na promoção da acessibilidade e da inclusão graças a investimentos realizados pelo Governo do Brasil. “Está ficando mais acessível. Eu e as pessoas com deficiência que conheço estamos conseguindo resolver as nossas questões do dia a dia. Isso porque tem uma gestão que está na luta e no desenvolvimento de políticas públicas assertivas, que saem do papel e impactam de forma extraordinária as nossas vidas”.

Novo Viver Sem Limite

Lançado em 2023, o Plano Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência – Novo Viver sem Limite (NVSL) é a política do governo federal voltada à promoção da inclusão e à ampliação de direitos das pessoas com deficiência em todo o país. Coordenado pela Secretaria Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência (SNDPD), a iniciativa atualmente mobiliza 14 ministérios e está estruturada em quatro eixos: gestão e participação social, enfrentamento ao capacitismo e à violência, acessibilidade e tecnologia assistiva, e promoção de direitos.

Ao todo, 10 estados já formalizaram adesão ao plano: Alagoas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Maranhão, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul. Ato que é considerado estratégico para a implementação da política nos territórios, ao possibilitar a estruturação de mecanismos de governança, monitoramento e participação social.

Para a secretária nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, Isadora Nascimento, histórias como a de Ana Cláudia demonstram a importância de políticas públicas voltadas à garantia de direitos e à eliminação de barreiras. “As histórias de vida que conhecemos ao longo da nossa atuação mostram que o acesso a direitos, serviços públicos, informação e participação social não pode depender de circunstâncias individuais”, pontua.

Na avaliação de Isadora, a ampliação da acessibilidade e da participação social é resultado de políticas públicas construídas com foco na garantia de direitos. “O papel das políticas públicas é justamente garantir que as pessoas com deficiência encontrem condições adequadas para exercer sua autonomia, fazer escolhas e ocupar todos os espaços da sociedade. Quando investimos em acessibilidade, inclusão e participação, estamos fortalecendo a cidadania e ampliando oportunidades para milhões de brasileiras e brasileiros como a Ana Cláudia”, destaca.

Texto: R.B.
Edição: F.T.